Faltam 51 dias para o primeiro dia do Enem 2026 e, nesta sexta-feira (18/09), o Inep publicou a nova edição da “A Redação do Enem 2026 – Cartilha do Participante”.

O documento oficial explica, de forma bastante direta, o que a banca espera dos estudantes e quais erros podem fazer o participante perder pontos ou até ter a redação anulada.

Se você pretende deixar a redação para outubro, a cartilha é um aviso para começar agora. Nesta edição, o Inep dedica uma atenção especial ao famoso “repertório de bolso”: aquela citação curinga que o estudante memoriza e tenta encaixar em qualquer tema.

O que tem dentro da cartilha

A publicação está organizada em três grandes blocos.

O primeiro apresenta a Matriz de Referência da redação, isto é, os critérios que orientam a avaliação do texto. Depois, a cartilha explica detalhadamente as cinco competências e mostra o que os avaliadores observam em cada uma delas.

Por fim, há uma parte especialmente útil para quem está estudando: dez redações produzidas por participantes do Enem 2025, acompanhadas de comentários pedagógicos sobre os pontos fortes e os aspectos que poderiam ser aprimorados.

O Inep também disponibilizou versões adaptadas para participantes com dislexia, com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e para pessoas surdas ou com deficiência auditiva. Quem precisa de atendimento especializado deve consultar a versão correspondente.

O que a prova exige, em português claro

A redação do Enem deve ser um texto dissertativo-argumentativo, escrito em modalidade formal da língua portuguesa e desenvolvido a partir da frase temática, dos textos motivadores e dos conhecimentos construídos ao longo da formação do participante.

O texto pode ter até 30 linhas.

A redação é corrigida por dois avaliadores independentes, graduados em Letras ou Linguística. Cada um atribui de 0 a 200 pontos em cada uma das cinco competências. Assim, cada corretor pode dar até 1.000 pontos, e a nota final do participante corresponde à média aritmética das notas totais atribuídas pelos dois avaliadores.

As competências avaliam:

  • o domínio da escrita formal da língua portuguesa;

  • a compreensão da proposta e a aplicação de conhecimentos de diferentes áreas;

  • a seleção, organização e interpretação de informações, fatos, opiniões e argumentos;

  • o uso dos mecanismos linguísticos necessários para construir a argumentação;

  • a elaboração de uma proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.

O alerta central: o que é “repertório de bolso”

Essa foi uma das partes da cartilha que mais chamou atenção.

O Inep define os repertórios de bolso como referências prontas, memorizadas e utilizadas de forma genérica e pouco aprofundada, sem uma conexão verdadeira com o tema proposto.

Na prática, trata-se daquela citação que o estudante decorou porque acredita que ela pode servir para qualquer assunto.

É o caso de frases como “Aristóteles dizia que o homem é um animal político”, usadas sem explicar a relação entre a ideia do filósofo e o problema discutido. Também pode acontecer quando o participante menciona A República, de Platão, apenas para iniciar a introdução, sem desenvolver a relação entre a obra e o tema.

Isso não significa que seja proibido citar Aristóteles, Platão ou qualquer outro pensador. O problema está em usar o repertório apenas como enfeite, sem fazê-lo contribuir para a argumentação.

E há uma informação importante, porque muita desinformação começou a circular: o uso de um repertório de bolso não zera automaticamente a redação.

A análise é feita principalmente na Competência II, que avalia a compreensão da proposta e a aplicação produtiva de conhecimentos de outras áreas. Um repertório genérico pode prejudicar a pontuação nessa competência, mas não provoca, sozinho, a anulação do texto.

O recado do Inep é claro: não basta citar. É preciso explicar, relacionar e utilizar a referência para desenvolver uma discussão sobre o tema.

O que o Inep considera um repertório produtivo

Segundo a cartilha, uma referência contribui efetivamente para a redação quando:

  1. é pertinente ao tema;

  2. está bem contextualizada;

  3. é legitimada socialmente;

  4. está articulada aos argumentos;

  5. ajuda a fundamentar o ponto de vista;

  6. amplia a discussão para a realidade brasileira.

O documento também apresenta exemplos práticos.

No tema do Enem 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, uma redação utilizou a Constituição Federal de 1988 como repertório produtivo.

A referência não aparece apenas como um marco histórico ou jurídico. O texto mostra que o Estado possui responsabilidade na proteção da população idosa e, em seguida, relaciona esse direito à distância entre o que está previsto na legislação e o que ocorre na prática.

Nesse caso, a Constituição ajuda a sustentar a tese do participante.

Em outro exemplo, uma introdução que menciona Platão e A República foi classificada como improdutiva. Segundo a análise do Inep, a conexão entre a obra e o envelhecimento era superficial e forçada. O repertório funcionava apenas como uma abertura genérica.

Um teste simples pode ajudar a identificar esse problema: retire a citação do parágrafo e veja o que acontece.

Se o texto continuar fazendo exatamente o mesmo sentido sem a referência, é possível que ela não estivesse cumprindo uma função importante. Um repertório realmente produtivo é aquele que faz falta quando é retirado.

O que continua zerando a redação

A cartilha também reforça as situações que podem levar à nota zero ou à anulação da redação. Entre elas estão:

  • fuga total ao tema;

  • texto que não seja dissertativo-argumentativo;

  • redação com até sete linhas;

  • trecho deliberadamente desconectado do tema;

  • recados para a banca, desenhos ou impropérios;

  • desrespeito à seriedade do exame;

  • identificação do participante fora do espaço indicado;

  • uso predominante de língua estrangeira;

  • texto ilegível para os dois avaliadores.

Dois detalhes merecem atenção.

O primeiro é a legibilidade. A letra não precisa ser bonita, mas deve permitir que os avaliadores compreendam o texto.

O segundo é a cópia. As linhas transcritas dos textos motivadores não entram na contagem das 30 linhas. Por isso, copiar partes da coletânea não ajuda o participante a atingir o tamanho mínimo da redação.

A redação precisa apresentar autoria, desenvolvimento e argumentos próprios.

As dez redações exemplares valem mais do que uma lista de citações

O Inep selecionou dez redações de destaque produzidas no Enem 2025, todas sobre o tema do envelhecimento da população brasileira. Os textos foram escritos por estudantes das cinco regiões do país e aparecem acompanhados de comentários pedagógicos.

Duas dessas redações, de Caio Braga e Rodrigo Fortes, alcançaram nota mil e já haviam circulado anteriormente.

Ler esses textos com os comentários ao lado pode ser mais útil do que simplesmente decorar uma lista de filósofos. As análises mostram como diferentes referências foram utilizadas para construir argumentos sobre a realidade brasileira.

Entre os repertórios empregados estão o filme Vitória, o conceito de “sociedade do cansaço”, de Byung-Chul Han, e a ideia de necropolítica, desenvolvida por Achille Mbembe.

O ponto em comum entre os textos não é a quantidade de citações, mas a forma como cada referência foi incorporada à discussão. O repertório aparece para explicar um aspecto do problema, aprofundar a análise e sustentar o ponto de vista do participante.

No Enem 2025, apenas dez participantes alcançaram nota mil na redação, o menor número dos últimos anos. Em 2024, foram 12 redações nota mil; em 2023, 60.

No mesmo exame, 211.859 redações receberam nota zero, o equivalente a cerca de 6% dos participantes que fizeram o primeiro dia de prova.

Como usar a cartilha nos 51 dias que faltam

1. Leia a cartilha inteira

Leia o documento pelo menos uma vez, de preferência o quanto antes.

Ele apresenta as regras da prova, explica as competências e mostra exemplos concretos de como os critérios são aplicados. Essas informações são mais confiáveis do que listas de dicas soltas encontradas na internet.

2. Leia três redações exemplares por semana

Faça a leitura sempre com os comentários pedagógicos ao lado.

Observe como cada participante introduz o repertório, de que forma o relaciona ao tema e como transforma a referência em argumento.

3. Escreva pelo menos uma redação por semana

Escolha temas de diferentes eixos, como meio ambiente, educação, tecnologia, trabalho, saúde e direitos sociais.

Também é importante escrever no tempo de prova. Treinar apenas a estrutura, sem controlar o tempo, pode causar dificuldades no dia do exame.

Além disso, escrever sem corrigir depois acaba sendo apenas metade do estudo. É preciso identificar os erros, entender por que eles aconteceram e reescrever os trechos problemáticos.

4. Aplique o teste da retirada

Sempre que utilizar um repertório, pergunte:

Se eu retirar essa referência, o argumento perde força?

Se a resposta for não, talvez seja necessário contextualizar melhor a citação ou escolher outro repertório.

5. Monte um repertório curado, não uma lista de citações

Em vez de decorar 30 frases prontas, escolha de oito a dez referências que você realmente compreenda.

O mais importante não é saber citar muitos autores, filmes ou conceitos. É entender o que cada repertório significa e em quais discussões ele pode ser utilizado de maneira coerente.

É aqui que a Estudarium pode ajudar

O Corretor de Redação da Estudarium analisa o texto por parágrafo, aponta problemas e apresenta uma estimativa de nota em cada competência — incluindo a Competência II, justamente a que pode ser prejudicada pelo uso genérico de repertórios.

Assim, o estudante não precisa esperar o resultado do Enem para descobrir que está utilizando as referências de forma superficial. Ele pode identificar o problema logo após a escrita e ajustar a estratégia enquanto ainda há tempo.

O plano gratuito inclui duas correções por mês. Quem escreve uma redação por semana também pode testar os planos pagos por sete dias, sem compromisso.

Faltam 51 dias para o primeiro dia do Enem. A cartilha já foi publicada e as orientações estão disponíveis.

Agora começa a parte que nenhum documento oficial pode fazer pelo estudante: escrever, revisar e aprender com os próprios erros.


Fontes usadas nesta publicação:

Fonte: Inep/MEC, 2026. “Enem 2026: cartilha da redação está disponível”.

Fonte: Inep/MEC, 2026. “A Redação do Enem 2026 – Cartilha do Participante”.

Fonte: Guia do Estudante, 2026. “Baixe aqui a cartilha de redação do Enem 2026”.

Fonte: Guia do Estudante, 2026. “Veja exemplos de repertório improdutivo na redação do Enem 2025, segundo o Inep”.